O atual carnaval brasileiro: fato e
fantasia
Marcos Goursand [1]
SUMÁRIO
O trabalho que estou postando é o resultado de uma pesquisa
publicada em 1980, que posteriormente resultou em uma tese apresentada em 1991
e depois passada para pdf em 2004 [2]. Neste texto faço um resumo atualizado do carnaval brasileiro.
Estudei e pesquisei
o carnaval de 1976 a 1980, abordando-o como fenômeno psico-social,
especialmente como expressão de um comportamento coletivo que possui
características e dinâmicas próprias.
Atualmente, o
carnaval brasileiro se difere do carnaval de quatro décadas atrás, mas continua sendo
uma significativa manifestação da cultura brasileira e tem crescido ano a ano na quantidade e complexidade de eventos,
recursos técnicos utilizados, número
de participantes em suas diversas formas de expressão, como os desfiles
de blocos, escolas de samba e trios elétricos. O carnaval é a festa
mais representativa do Brasil e uma das maiores do mundo.
Os eventos carnavalescos passaram a ser também expressões de
crítica social e política e manifestações contra o racismo, o machismo, a
homofobia, o preconceito sexual. Mas, por outro lado, cresceram
significativamente a violência, os acidentes de trânsito, o abuso de álcool e
drogas, o desrespeito às mulheres, as agressões, o despudor, além do assédio sexual
a mulheres, crianças e adolescente que se tornam mais vulneráveis no carnaval.
O carnaval, com todas as mudanças sofridas ao
longo do tempo, desde o entrudo do império até o carnaval massificado de hoje e
com todos os seus estilos, ritmos, modalidades e diversidades regionais, continua sendo um fenômeno psico-social de
comportamento coletivo e individual e um meio de comunicação verbal
e não-verbal para superar frustrações e liberar necessidades, desejos,
sentimentos, emoções, fantasias.
Para quem tiver interesse, no facebook, blog e slideshare
podem ser lidos e baixados meus trabalhos sobre o carnaval e outros textos de
minha autoria.
Posso também enviar cópia da tese gratuitamente pelo e-mail goursand@gmail.com
ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE O ATUAL CARNAVAL
Em algumas grandes cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo,
Salvador, Recife, Belo Horizonte, Florianópolis e mesmo em cidades menores como
Olinda e Ouro Preto, o carnaval cresceu e se organizou mais. São Paulo
apresenta hoje um desfile de escolas de samba comparável ao do Rio de Janeiro.
Belo Horizonte, cujo carnaval estava moribundo, viu o mesmo despontar
vigorosamente de 5 ou 6 anos para cá, sendo que teve no ano passado o maior
carnaval de toda a sua história, com 365 blocos cadastrados. Foram inúmeros
blocos e bandas desfilando pelas ruas nos dias e vésperas do carnaval.
O Brasil criou o pré e o pós-carnaval, quando são feitos
desfiles de blocos antes da abertura e após o encerramento oficial do carnaval.
De fato, o carnaval hoje começa na sexta-feira, além dos eventos do
pré-carnaval das semanas anteriores.
No Rio, o pré-carnaval deste ano começou no domingo, 7 de
janeiro, com 14 blocos, orquestras e fanfarras que lotaram várias praças do
centro da cidade. Foi o carnaval “não oficial”, com eventos espalhados por
vários lugares do centro da cidade de manhã até a noite.
No
final de semana anterior ao carnaval foram
111 blocos que desfilaram pelas vias da capital no sábado e no domingo,
3 e 4 de fevereiro. Dentre eles alguns famosos, como o da Preta Gil e Simpatia
é Quase Amor contando com a presença de vários artistas conhecidos. No
sábado, 200 mil pessoas foram às ruas e no domingo 850
mil pessoas.
Durante
o carnaval, além dos tradicionais desfiles de escolas de samba, 564 blocos
aprovados pela prefeitura vão realizar 600 desfiles. A
previsão é de que serão 6 milhões de foliões nas ruas.
O Cordão da Bola Preta, o bloco mais antigo e
popular do Rio de Janeiro, comemorou neste sábado seu primeiro centenário com
seus cinco trios elétricos num desfile que foi acompanhado por
mais de um milhão de pessoas pelas ruas do centro da cidade.
São Paulo, que tinha a pecha de “túmulo do
samba” e um carnaval criticado por tentar ser uma cópia do Rio, apresenta
hoje o segundo maior carnaval do Brasil e tem no desfile de escolas de
samba, a sua principal manifestação, comparável ao do Rio, em termos de beleza,
riqueza e número de participantes. Além das escolas de samba, também
existe um sem número de blocos que desfilam ao som de MPB, marchinhas, axé,
sertanejo, rock, funk. O desfile do grupo especial ocorre na sexta-feira e
no sábado de carnaval, evitando coincidir com o do Rio, o que tem levado um
grande público ao sambódromo do Anhembi
e muitos artistas e famosos a participar do desfile.
Neste ano, a prévia do carnaval contou com um desfile de 187
blocos nas ruas da cidade nos dias 3 e 4 de fevereiro. No dia 4, o maior bloco de
São Paulo, o Acadêmicos do Baixo Augusta, reuniu 1 milhão de pessoas na rua da
Consolação, na tarde do domingo. Para os dias de carnaval
estão programados 176 desfiles. E para o pós-carnaval, nos dias 17 e 18, estão
previstos 107 desfiles.
Em Salvador, a
programação oficial do carnaval de 2018 começou no dia 03 de fevereiro e
vai até o dia 14 de fevereiro (quarta-feira de cinzas), embora várias festas
tenham ocorrido desde o reveillon no
dia 31 de dezembro. O "mantra" do carnaval deste ano é
"eu quero mais é beijar na boca”.
Blocos afros, como o Ilê Aiyê, o mais antigo da
Bahia, os Filhos de Gandhy, o Olodum e o Malê de Balê, alem de serem
organizações carnavalescas, tiveram um importante papel social na preservação
da cultura negra e em projetos sociais, já que a cidade concentra índices
alarmantes de desigualdade racial e exclusão social, em que a grande maioria é
oprimida pela minoria branca. Hoje são outros blocos que participam dos
desfiles na capital baiana, mais preocupados em exibir artistas famosos.
As centenas de blocos e trios elétricos do carnaval de Salvador são
as principais atrações da festa. Não deixa de ser simbólica a distribuição dos
espaços nos trios elétricos: no grande palco sobre as carretas dos trios vão os
cantores e os convidados vip,
geralmente artistas e gente rica e famosa; no entorno do carro e protegidos por
cordões de isolamento que mais lembram escravos amarrados por cordas, ficam os
foliões pagantes; e, no “muvucal” das ruas fica aglomerada a população pobre e
majoritariamente negra e mestiça.
A participação na maioria deles é paga e são comercializados
abadás que possibilitam a permanência de um público restrito, dentro de um cordão
de isolamento, com maior proximidade em relação ao trio elétrico. Porém, a
festa também conta com os blocos sem corda, compostos por trios independentes,
os quais não possuem cordão de isolamento, são gratuitos e fazem parte do
chamado Carnaval Pipoca.
O Carnaval Pipoca é considerado um tipo de
resistência do carnaval de Salvador, que com o tempo passou a ter mais festas
pagas, mais elitizadas e que acabaram gerando exclusão social. Devido ao fato
de ser gratuito, é no Pipoca onde o povo realmente se diverte, onde boa parte
da população local curte a folia. Nos outros circuitos e eventos fechados, uma
grande parte é composta por turistas, artistas e celebridades.
O carnaval de Recife é um dos mais diversos e
tradicionais do Brasil. Pernambuco segue a tradição da festa com blocos de rua,
shows e agremiações onde é possível ouvir e dançar maracatu, frevo, coco,
samba, ritmos africanos, além da música popular brasileira.
O maior atrativo do carnaval de Recife é o desfile
do Galo da Madrugada que foi considerado o maior bloco de carnaval do mundo
pelo Guinness Book em 1994. Seu desfile foi no dia 10 de fevereiro. Mais de 30 trios
elétricos acompanharam o bloco. O evento, reconhecido como patrimônio cultural
e imaterial de Pernambuco, continua crescendo e bateu a marca de 2,5 milhões de
pessoas.
É significativo o renascimento do carnaval de Belo
Horizonte, hoje um dos maiores do Brasil. Há alguns anos atrás, as pessoas
fugiam de BH buscando carnavais em outras cidades, ou simplesmente curtindo
praias e lugares sossegados. Em 2017 a cidade contou com 3 milhões de foliões
nas ruas (superior à população da cidade), tendo atraído turistas de outras
cidades, estados e até do exterior, segundo a Belotur, a empresa de turismo da
prefeitura. Foram mais de 350 blocos cadastrados, 416 desfiles, três palcos
oficiais, desfiles de escolas de samba e blocos caricatos.
Para 2018, são esperados mais de 3,6 milhões de foliões,
entre moradores e turistas, nos cerca de 480 blocos de rua, que farão 550
desfiles pelas ruas na capital mineira. Alguns blocos que desfilaram antes do
carnaval buscavam enfatizar o respeito às mulheres e aos negros e o fim da
intolerância contra gays, lésbicas e simpatizantes. O carnaval oficial de Belo
Horizonte vai do dia 27 de janeiro a 18 de fevereiro.
A COMERCIALIZAÇÃO DO CARNAVAL
Como o carnaval tem crescido cada vez mais,
acabou se tornando um grande e rentável negócio para seus organizadores e
agremiações participantes. Hoje ele é um evento padronizado e
comercializado pelos meios de comunicação de massa, especialmente a televisão, sofrendo
influência de interesses estranhos aos seus fins e com isso perdendo sua
característica básica que é a de "communitas".
No Rio paga-se R$ 390,00 por um ingresso na
arquibancada e R$ 1.800,00 na frisa descoberta (arquibancada mais próxima da
pista) para se assistir a um dia do desfile das escolas de samba. O ingresso
para um camarote custa R$ 3.890,00.
Em São Paulo, o ingresso para assistir aos desfiles de
sexta-feira ou sábado custa de R$ 107,00 a R$ 149,00 nas arquibancadas e de R$
1.750,00 a R$ 2.200,00 no camarote da Brahma.
Em Salvador, o ingresso para um lugar no camarote
de um dos vários circuitos dos blocos e trios elétricos custa até R$ 2.250,00 e
para desfilar junto a um bloco como o Camaleão paga-se R$ 990,00. Um camarote
para 500 pessoas e mais outros dois foram interditados porque além de não terem
licença de funcionamento e auto de vistoria do Corpo de Bombeiros, também não
tinham uma rota de fuga em caso de emergência.
Em Recife paga-se R$ 280,00 para ver o Galo de um
dos chamados camarotes, ao longo do desfile, que também não apresentam as
devidas condições.
Em
12/01/2018, em entrevista ao UOL, Leandro Vieira, o carnavalesco da Mangueira,
afirmou que "as escolas de samba se divorciaram do povo" e que é
necessária a reinvenção do desfile. “Este modelo atual não tem mais condições
de sobrevivência”, afirma o artista, que acredita que o caminho de retomada do carnaval
das escolas está na volta dos desfiles para os braços do povo. “Na verdade, os
blocos hoje são o que as escolas foram um dia”.
O QUE DIFERE O CARNAVAL ATUAL DO DE QUATRO DÉCADAS ATRÁS
O carnaval é expressão de alegria e superação, embora
superficial e passageira, de uma grande parcela da população brasileira diante
do caldeirão de problemas, crises, desemprego, violência, corrupção e
desigualdade social em que o Brasil mergulhou.
O carnaval brasileiro de hoje tornou-se também um espaço de
manifestações sociais e políticas. Foram frequentes em 2017 temas sobre a
violência contra as mulheres, além de marchinhas, cartazes e palavras de ordem
contra o assédio sexual e o desrespeito às mesmas. Também foram frequentes as
críticas à situação política do país. Nos blocos carnavalescos e trios
elétricos por todo o país eram vistos cartazes e ouvidos gritos de “Fora
Temer”.
Mas, por outro lado, o carnaval continua cada vez mais sendo
uma festa alienada e alienante, uma espécie de refúgio temporário de fuga dos
problemas reais do cotidiano. É bem como mostra uma charge em que um cidadão
vai perguntando a outras pessoas sobre a atual situação do país e elas vão se
referindo a “políticos corruptos, desemprego, violência, miséria, falta de escolas
e hospitais” e ao perguntar então “o que é que vamos fazer diante disso”, as
pessoas respondem “vamos pular o carnaval”.
Ainda é atual o comentário do teatrólogo Fernando Arrabal de
que “o carnaval brasileiro, notadamente o carioca, é o maior espetáculo de
simulação do mundo. Um imenso cerimonial público onde tudo é simulado : a
alegria, a luxúria, a suntuosidade. O sexo, como tudo no carnaval também é
representado” (3).
O carnaval é também o momento da aparição e exibição
constante de cantores, artistas de TV, modelos famosos e outras celebridades a
serem seguidas e idolatradas pelo público.
O erotismo “romântico” cedeu lugar a uma busca de
satisfação sexual superficial e promíscua. O par erótico dos bailes e escolas
de samba foi substituido por uma multidão onde cada um busca apenas contatos
físicos, beijando-se e esfregando-se com várias outras pessoas. No carnaval de
Salvador, do Rio e de outras cidades, quanto mais mulheres um homem conseguir
beijar na boca, tanto mais irá se sentir valorizado. O mesmo vale também para
as mulheres. A multidão proporciona, ao mesmo tempo a sensação de anomia (e
também de impunidade), de identidade coletiva e de poder.
Nos desfiles das escolas de samba, blocos e trios
elétricos, quanto mais despida uma mulher se apresentar, tanto mais será
valorizada, principalmente se for artista, cantora, modelo ou alguém que pode
ser reconhecido por ter participado do show de algum apresentador de televisão
ou aparecido em alguma revista de futilidades.
O "jeitinho brasileiro" inventou o tapa-sexo.O
uso do tapa-sexo e do top-less foi a
forma que os carnavalescos encontraram para conseguir proporcionar momentos de
nudez quase total na avenida e captar a atenção e a torcida dos espectadores.
Alguns destaques das escolas de samba também têm desfilado praticamente nuas.
Marcado por profundas frustrações sócio-econômicas
e insatisfações pessoais, o brasileiro aproveita as ocasiões festivas para
desabafar e o faz, muitas vezes, com agressividade e violência. Eventos
inicialmente capazes de gerar alegria (carnaval, futebol, baladas, festas
populares) acabam se tornando violentos. Porque? Somente o
efeito do álcool e de drogas não explica.
Somos, de fato, uma sociedade em franco e acentuado
processo de massificação [4]
e desagregação. Estamos perdendo os valores sociais e éticos, enquanto a
violência, a corrupção, a desonestidade, o oportunismo, a falta de respeito às
leis e ao próximo vão tomando conta das pessoas. O comportamento usual de um
jovem de classe alta ou média alta, atlético, de aparência cuidada, com carro
importado, às vezes não difere do de um delinqüente de periferia quando se
trata de carnaval, futebol, festas ou namoro.
Durante o carnaval no Rio, em 2017, 2.154 pessoas procuraram
a Polícia Militar devido a casos de violência contra a mulher. De acordo com um
balanço divulgado pela PM, ao menos uma mulher foi agredida a cada 3 minutos e
20 segundos na capital fluminense entre as 8h de sexta-feira e as 8h de
quarta-feira.
Assim, o carnaval acaba sendo influenciado pela situação do
país (o mais corrupto e violento do mundo) e por algumas características comuns
no brasileiro, como a superficialidade (o maior consumidor de cosméticos,
cirurgias plásticas e novelas do planeta), a irresponsabilidade (um dos que mais
cometem infrações legais e de trânsito) e a idolatria (de líderes políticos,
cantores, artistas de televisão, jogadores de futebol), refletindo os padrões
sociais vigentes de um país incivilizado e os princípios de uma população ainda
distante de ideais mais elevados.
O QUE PODEMOS CONCLUIR SOBRE O CARNAVAL
O carnaval é a maior e mais significativa festa
do Brasil e uma das maiores do mundo e, embora tenha mudado nestas três ou quatro décadas, continua
sendo o mesmo fenômeno de comunicação e de liberação coletiva de necessidades
reprimidas que nessa época encontram condições para seu extravasamento. O mesmo é também um fenômeno psico-social e
um significativo meio de comunicação verbal e não-verbal para superar frustrações e expressar
necessidades, desejos, sonhos, sentimentos, emoções, fantasias.
Ao afrouxamento da censura externa, social,
corresponde também a diminuição da censura interna, permitindo ao folião nos
dias de carnaval, usar uma liberdade de que não dispõe nos demais dias do ano.
Fugir às regras, normas sociais e regulamentos é a tônica da expressão da
maioria dos foliões. No entanto, a satisfação de necessidades psicológicas,
emocionais e sociais no carnaval se dá muito mais no plano simbólico do que no
real.
O carnaval tem a propriedade também de excitar ou
estimular comportamentos desadaptados ou violentos, o que é facilmente
explicável pela suspensão ou diminuição da censura e da repressão. São quatro
dias de "loucura" permitidos após os quais cada um volta à vida
"normal" na quarta-feira de cinzas. Nesse período, há um considerável
aumento no consumo de bebidas alcóolicas e de drogas, que têm por fim
especialmente desinibir o folião e ajudá-lo a superar suas censuras e
resistências. Em consequência, tanto a exaltação, a euforia, a instabilidade, a
negação da realidade, os sentimentos de onipotência e de triunfo, como a
agressividade e a violência acabam impregnando fortemente os eventos
carnavalescos.
O estudo de sua dinâmica e de seus conteúdos nos
ajuda a compreender melhor as expressões dos comportamentos psico-sociais de
seus participantes.
[1] Psicólogo social e professor
aposentado pela UFMG. Doutor pela PUC-SP. Pós-doutor pela UCLA, E.U.A. No
momento, tem 3 livros publicados.
[2] Carnaval: fato e fantasia – uma abordagem psicossocial. Tese para
concurso de professor titular, Universidade Federal de Minas Gerais, 1991.[3] Entrevista
concedida à revista "Fatos e Fotos, no 812, março de 1977. [4] Jean Baudrillard, em seu clássico À sombra das maiorias silenciosas, nos
apresenta um quadro que bem poderia explicar a acentuada massificação da
sociedade brasileira.
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